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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A PARÁBOLA DO RICO E LÁZARO


A parábola do rico e Lázaro, registrada no Evangelho de Lucas, capítulo 16, versos 19 a 31, ressalta a possibilidade da comunicação entre os mortos e os vivos, as diferenças vibratórias entre os espíritos e a lei de causa e efeito. O cerne dessa parábola, entretanto, é a indiferença moral, que se revela como uma característica predominante nos habitantes do planeta Terra, dificultando o seu progresso em direção a Deus.
Emmanuel, no livro "O Consolador", na questão 180, afirma que a indiferença é a cristalização do sentimento. O benfeitor ressalta que a indiferença é um dos piores estados psíquicos da alma, uma vez que anula as possibilidades de progresso do espírito, bloqueando os germes de sua perfeição
No capítulo IX, item 8, do "Evangelho Segundo o Espiritismo," o espírito comunicante, coincidentemente chamado Lázaro, registra que a civilização planetária atualmente apresenta a atividade intelectual como virtude,  enquanto mantém a indiferença moral como vício.
A humanidade, sem dúvida, tem progredido de maneira admirável no campo do conhecimento, na pesquisa científica e na tecnologia. Entretanto, juntamente com essas conquistas tecnológicas surpreendentes, a indiferença moral em relação às necessidades dos outros também é impressionante.
A indiferença moral pode ser observada nas ruas tanto dos pequenos quanto dos grandes centros urbanos, acompanhando em silêncio a ativa atividade intelectual humana. Entre prédios, veículos, construções e equipamentos públicos, permanecem invisíveis os necessitados que estão presentes por toda parte: nos semáforos, nas calçadas, nas portas de bancos, lojas e restaurantes, estendendo suas mãos em busca de ajuda, enquanto aqueles que passam por eles seguem indiferentes.
A indiferença moral também se manifesta nos comportamentos humanos que optam por não cumprimentar um conhecido, agindo como se não o vissem. Ela está presente nos comportamentos que negam a um pai, irmão, filho, amigo ou até a um desconhecido qualquer forma de auxílio, seja material ou intelectual.
Foi por isso que Jesus contou esta parábola:
“havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele. E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico e foi sepultado. No Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio. E, clamando, disse: Abraão, meu pai, tem misericórdia de mim e manda a Lázaro que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, somente males; e, agora, este é consolado, e tu, atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá, passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, Abraão, meu pai; mas, se algum dos mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.

As parábolas de Jesus são convites à reflexão, orientados para o processo de transformação moral. Diante deste texto, é relevante questionarmo-nos se nos identificamos com algum dos personagens ou com os conteúdos e símbolos apresentados.
O personagem rico na parábola representa a indiferença diante das necessidades alheias. Apesar de ser retratado como alguém rico em recursos materiais, é crucial considerar todas as demais riquezas que Deus concede ao espírito para sua jornada evolutiva bem-sucedida. Todas as pessoas possuem talentos e possibilidades diversificadas, muitas vezes não compartilhadas com os outros devido à indiferença e ao egoísmo que as aprisionam
Por outro lado, os "Lázaros" das necessidades podem ser qualquer pessoa em dificuldade ou necessidade, buscando auxílio dos outros, mas encontrando apenas indiferença e frieza por parte daqueles a quem pedem ajuda. São indivíduos que Deus espera serem socorridos por meio do auxílio de outros, mas que não encontram nos corações daqueles que possuem a capacidade de ajudar a boa vontade necessária para se tornarem instrumentos de apoio aos necessitados.
O grande desafio apresentado pela parábola é a capacidade de reconhecer, no íntimo de cada ser, a presença da indiferença, buscando dissolvê-la. Essa ação permitirá libertar-se das correntes do egoísmo, um vício de caráter que colocou o rico da parábola em um estado doloroso de consciência, que se assemelha ao inferno. Este é o destino de todos aqueles que conduzem suas vidas na direção oposta à lei do Amor.
O rico, da parábola, desperta no mundo espiritual em uma situação dolorosa, resultado direto do egoísmo que guiou o uso dos talentos que Deus lhe concedeu. Ele percebe que Lázaro está em uma condição melhor do que a sua e é informado de que isso ocorre porque Lázaro enfrentou as provações de sua vida miserável com resignação. Em meio à profunda amargura, ele suplica por ajuda a Abraão, que na parábola representa um benfeitor espiritual.
Contudo, Abraão não pode socorrê-lo naquele momento, sendo-lhe impossível. Um abismo existe entre aqueles que se atormentam com a culpa em suas consciências e aqueles que aprenderam a amar e a servir.
Deus cuida de todos os Seus filhos, atendendo às suas necessidades verdadeiras, não aos seus desejos superficiais. No caso do rico, sua impossibilidade de receber socorro naquele momento decorre dos desígnios da lógica divina, que muitas vezes são desconhecidos e inacessíveis aos seres humanos. Em algumas ocasiões, a maior dor e o mais intenso sofrimento na vida de uma pessoa podem ser os instrumentos que a conduzirão a uma conexão mais profunda com Deus.
O apóstolo Paulo, na segunda carta aos Coríntios, capítulo 12, versos 7 e 8, faz referência a um "espinho na carne" que o atormentava constantemente. Ele havia suplicado a Deus para ser libertado desse sofrimento. Contudo, a resposta divina foi negar seu pedido, pois esse "espinho" era aquilo que o mantinha espiritualmente vigilante e atento.
Isso ilustra que nem sempre a remoção imediata do sofrimento é o melhor caminho, pois às vezes é através dessas dificuldades que somos impulsionados a crescer espiritualmente e a desenvolver uma maior proximidade com Deus.
Léon Denis, no livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor," destaca a importância da dor no processo de renovação moral. Ele descreve a dor como uma ferramenta divina capaz de purificar o coração humano, eliminando o mal que a consciência não reconheceu.
O egoísmo do rico na parábola se manifesta mesmo quando ele está enfrentando o sofrimento. Ele está disposto a rogar por bênçãos divinas somente para seus entes queridos, demonstrando esquecimento em relação às demais criaturas humanas, que também são filhas do mesmo Pai. Ele pede a Lázaro, em espírito, que retorne para alertar seus irmãos sobre as verdades da vida após a morte. No entanto, sua preocupação está apenas com sua família, ignorando as necessidades de todas as outras criaturas. O egoísmo ainda prevalece em seus impulsos, e ele não percebe que é exatamente esse egoísmo que é a raiz de toda a dor e sofrimento que está vivenciando.
Abraão respondeu, afirmando que os familiares do rico já tinham à disposição Moisés e os Profetas, e que eles deveriam estudar esses ensinamentos, pois nada do que estava ocorrendo era novo; todas essas verdades já haviam sido transmitidas pelos missionários que vieram antes de Jesus.
O rico possuía as revelações divinas deixadas pelos Profetas, mas negligenciou a oportunidade de se aprofundar nessas sábias palavras e permitir que elas guiassem sua vida.
A humanidade tem no Evangelho de Jesus um guia para a sua evolução espiritual, e na Doutrina Espírita um manual para percorrer esse caminho. Conhecer, refletir e aplicar os ensinamentos que Jesus nos deixou é uma escolha individual que compete a cada um fazer.

sábado, 31 de março de 2018

A ÚLTIMA CEIA


A tradição católica celebra a Paixão, Morte e a ressurreição de Jesus Cristo, em cerimoniais litúrgicos que em data definida no calendário católico, conhecida como Semana Santa. O Domingo de Páscoa, nessa tradição, é dedicado à celebração da ressurreição de Jesus, simbolizando, sobretudo, a vitória da vida sobre a morte.

A Páscoa judaica é uma das celebrações mais significativas para o povo judeu, pois marca a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, que se estendeu por aproximadamente quatrocentos anos. Notavelmente, os últimos dias de Jesus na Terra coincidiram com as festividades dessa Páscoa judaica

Jerusalém era uma cidade santa para o povo judeu, pois abrigava o grandioso Templo de Salomão, onde se realizavam as principais cerimônias religiosas. Por essa razão, durante as celebrações, a cidade se enchia de peregrinos. Pessoas de toda a Palestina partiam em romaria rumo a Jerusalém para participar das festividades da Páscoa, que se estendiam por oito dias.

No entanto, naqueles dias, Jesus, que era judeu, estava ausente de Jerusalém. Ele havia se dirigido com seus discípulos para Betânia, atendendo ao chamado de amigos muito queridos: Marta e Maria, irmãs de Lázaro.

As irmãs enviaram mensagem a Jesus, implorando sua presença, pois Lázaro estava gravemente doente (João 11, 1-3). Jesus, ao chegar em Betânia, descobre que Lázaro já estava no sepulcro há quatro dias e que seu corpo já exalava mau odor (João 11, 39)

Jesus, diante de um expressivo número de testemunhas, dirigiu-se ao sepulcro e ordenou: "Lázaro, sai para fora!" (João 11:43). Esse foi o milagre mais notável realizado por Ele. As pessoas presentes ficaram perplexas e maravilhadas. Nunca antes na história alguém havia feito algo semelhante. A notícia desse fenômeno espalhou-se rapidamente por toda a Palestina. Muitos viajaram até Betânia para verificar os fatos e se depararam com a extraordinária realidade: Lázaro estava vivo!

Jesus retorna a Jerusalém, cidade que estava repleta de pessoas devido às comemorações da Páscoa. Ao saber que Jesus estava a caminho de Jerusalém (João 12:12), o povo, em êxtase, entoou hinos e salmos, lançando ramos de palmeiras ao chão para criar um tapete verde em homenagem à passagem do rei. Após o milagre da ressurreição de Lázaro, o povo não tinha mais dúvidas: Jesus era o rei, o Messias esperado que viria para libertar os judeus do domínio romano.

Jesus entra na cidade, mas não da maneira tradicional da época, quando os reis, após vencerem guerras, faziam sua entrada triunfal montados em cavalos e corcéis majestosos. Jesus, o Príncipe da Paz, adentra a cidade montado em um jumento, simbolizando que sua vitória é sobre o mundo e que seu reino é fundamentado no amor e na paz.

Os fariseus já haviam decidido que Jesus deveria morrer (João 11:53-57), mas não se atreveram a prendê-lo diante do povo em êxtase. Era necessário capturá-lo em um momento de isolamento. Jesus, ciente de sua situação, não evitava os fariseus e sabia que sua hora de partir estava próxima (João 11:1). No entanto, Ele tinha um desejo ardente de celebrar a última ceia da Páscoa com seus discípulos (Lucas 22:11). Por isso, buscava um local seguro para se reunir com eles, longe dos olhares e mira farisaica. 

Jesus, então, envia Pedro e João às portas da cidade com uma missão: encontrar um homem carregando um cântaro. Esse homem os conduziria até sua casa, onde celebrariam a última ceia. O homem do cântaro, uma figura misteriosa cujo nome e origem não são registrados nos evangelhos, generosamente ofereceu sua casa para que Jesus e seus discípulos realizassem a celebração (Lucas 22:8-13). 

A última ceia, também conhecida como a ceia da Páscoa, nos legou inúmeros ensinamentos. A descrição desse momento nos quatro evangelhos é repleta de conteúdo espiritual, tão vasto que é desafiador enumerar todos os pontos sem tornar a leitura exaustiva. 

Por isso, selecionamos três tópicos para uma breve reflexão.

1- Na última ceia, Jesus anunciou a vinda do Consolador prometido, interpretado por alguns como a doutrina espírita. Conforme João 14:15-26: "Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre." (João 14:15) "Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito." (João 14:26). 

A doutrina espírita não foi concebida pelos homens do mundo, mas revelada ao mundo pelas vozes celestiais. Allan Kardec foi o instrumento escolhido por Jesus para codificar os ensinamentos oriundos do além. Da mesma forma que Moisés recebeu os Dez Mandamentos diretamente dos céus, Allan Kardec, com a ajuda de diversos médiuns, recebeu das esferas sublimes, cumprindo-lhe apenas sistematizar e codificar os conteúdos transmitidos pelos espíritos. 

O espiritismo representa a concretização da promessa feita por Jesus naquela última ceia. Pois, após Ele, nenhuma outra doutrina religiosa ou filosófica chegou à Terra proveniente dos céus.

O espiritismo reaviva os ensinamentos do Cristo, fornecendo a chave para a interpretação de diversos textos que, à primeira vista, parecem enigmáticos. Isso porque, naquela época, o mundo ainda não estava preparado para compreender todos os ensinamentos transmitidos pelo Senhor.

Foi necessário que a humanidade progredisse em conhecimentos filosóficos e científicos para adentrar nos ensinamentos profundos ministrados pelo Cristo. Esse avanço também foi crucial para a compreensão dos temas abordados nas cinco obras que compõem a doutrina espírita: "O Livro dos Espíritos", "A Gênese", "O Livro dos Médiuns", "O Céu e o Inferno" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

2- Foi também naquela última ceia que Jesus destacou as duas maiores virtudes que a humanidade deve cultivar. Conjugadas nos verbos "amar" e "servir", elas habilitam o ser humano a aspirar à angelitude.

O verdadeiro amor é a manifestação de todas as outras virtudes. Quem ama, perdoa incondicionalmente. Quem ama demonstra paciência, tolerância, misericórdia, mansidão e é, ao mesmo tempo, pacífico e pacificador.

O apóstolo Paulo, ao abordar o tema do amor em sua primeira carta aos Coríntios, fez isso de maneira tão bela e profunda que sua mensagem foi transformada em versos e reverberou pelo mundo.“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como um bronze que ressoa ou como o prato que retine.  Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei.  Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.

Naquela última ceia, Jesus disse aos discípulos: "Amai-vos uns aos outros. Não apenas como amais a vós mesmos, mas amai-vos ainda mais, como eu vos amei. Pois os meus discípulos serão reconhecidos por muito amarem." (João 13:34). Um discípulo de Jesus é identificado pela sua capacidade de amar os demais seres do mundo exatamente como eles são.

Deus ama todas as suas criaturas, do verme ao anjo, com igualdade. Seu amor é incondicional, abrangendo tanto o algoz quanto a vítima. No livro "Paulo e Estevão", psicografado por Chico Xavier e ditado pelo espírito Emmanuel, na última página, após o desencarne do apóstolo Paulo, Jesus, acompanhado de Estevão, vai ao encontro do espírito de Paulo. Ele lhe diz que é da vontade do Pai que verdugos e mártires se unam eternamente em Seu reino. O amor é a mais elevada conquista da criatura humana, essencial para a ascensão à angelitude.

No entanto, o amor é verbo que não se conjuga sozinho, pois quem ama serve.

Quando Jesus anunciou, naquela última ceia, sua partida e a iminente chegada do Reino de Deus, os discípulos começaram a debater sobre quem seria o maior nesse Reino. A situação foi descrita em Lucas 22:24-27. Jesus, então, esclareceu-lhes que, no Reino de Deus, o maior será sempre aquele que mais serve, que mais se dedica, e que auxilia a todos sem queixas.

"Amar" e "servir" são dois verbos que, quanto antes soubermos conjugar, mais felicidade e saúde alcançaremos. 

3- Também naquela última ceia, Jesus revelou a traição de Judas e a negação de Pedro. Estes episódios merecem profunda reflexão, pois representam dois arquétipos, dois padrões psíquicos universais intrínsecos à condição humana. Ao expor a negação e a traição diante daquela assembleia, Jesus empregava métodos terapêuticos buscando induzir Pedro e Judas à introspecção. Durante toda a ceia, através de suas palavras e ações, ambos projetavam sombras internas, aspectos ocultos do inconsciente que necessitavam ser trazidos à luz. 

Jesus os convoca a introspecção.

Tendo advertido Pedro, o diálogo com Judas adquiriu maior profundidade. Jesus captava as emanações perturbadoras da atmosfera psíquica de Judas e procurou socorrê-lo, agindo como um professor que facilita o processo de aprendizado do discípulo.

Jesus empenha-se em auxiliar Judas no processo de despertar, permitindo que o discípulo aproveite os últimos momentos ao seu lado e se liberte da letargia que o mantinha preso no mundo

Após anunciar que seria traído e que o traidor seria identificado ao qual desse um pedaço de pão, todos acompanharam o gesto de Jesus em direção a Judas (João 13,26). Todos escutaram quando o Mestre disse a Judas: "Faça logo o que você tem que fazer" (João 13,27). Judas levantou-se e foi negociar com os fariseus a entrega de Jesus. Seria esse o papel destinado a Judas? Era essa a intenção de Jesus em relação a Judas? Será que Judas veio ao mundo com esse propósito?

É óbvio que não. A frase dita por Jesus objetivou o despertar de Judas, com o fim de lembrá-lo de sua missão na Terra. Ninguém tem como missão cometer crimes, erros ou equívocos. Todos nós temos como missão vencer a nós mesmos, superando hábitos e costumes equivocados que adquirimos em encarnações passadas.

Judas estava completamente conectado com as ilusões do mundo material. Ele desejava que Jesus alcançasse o poder terreno. Ele acreditava firmemente que, ao entregar Jesus ao Sinédrio, isso resultaria em uma guerra civil e que sairiam vitoriosos. Isso se devia ao fato de que apenas algumas horas antes, a multidão em Jerusalém havia aclamado Jesus como o rei dos judeus (João 12,13).

Jesus decifra a intimidade de Judas e busca despertá-lo, pois Judas, assim como todos nós, tinha a missão de transformar sua perspectiva em relação ao mundo e a si mesmo.

Judas viveu ao lado de Jesus durante todo o seu ministério de amor. Recebeu o melhor alimento espiritual diretamente da fonte mais pura e, tendo nutrido o espírito, chegou o momento de realizar a tarefa que lhe foi designada.

Da mesma forma, somos como ele. Estamos recebendo alimento espiritual da fonte há quanto tempo? Há quanto tempo nos nutrimos do amor que extraímos das lições de Cristo? Para todos nós também chegou a hora de agir prontamente, realizando aquilo para o qual viemos ao mundo.

Há uma frase que diz que os dias mais importantes de toda nossa vida são dois; o dia em que nascemos e o dia em que descobrimos o porquê nascemos. 

Sabemos que estamos neste mundo com o propósito de evoluir, um objetivo que somente pode ser alcançado através do autoconhecimento. Devemos permitir que as transformações ocorram, sempre utilizando Jesus como nosso ponto de referência, modelo e guia. Ele nos serve como inspiração e direção na busca por nos tornarmos melhores versões de nós mesmos.

Chega o momento para todos nós de realizar esse trabalho de forma rápida, depressa, deixando para trás as ilusões do mundo e voltando-nos para o nosso interior. Já gastamos muito tempo e energia na busca por conquistas materiais que, eventualmente, serão consumidas pelo tempo. Isso é apenas uma questão de tempo!

Assim como Judas, se continuarmos presos a ilusões, também trairíamos Jesus através de nossa inércia. A inércia se configura como traição daqueles que não se movem em direção à transformação moral, sendo que viemos a este mundo justamente para cumprir essa tarefa. Se não agirmos rapidamente para realizar aquilo para o qual viemos, a oportunidade passará, a encarnação passará, e encerraremos nossa jornada com a sensação de falha, acreditando que traímos nosso projeto encarnatório e, ainda mais dolorosamente, que traímos Jesus.

Quando perguntaram a Chico Xavier qual era a maior a dificuldade que os espíritos enfrentam após a morte, respondeu a maior antena psíquica que o mundo já conheceu: A questão mais aflitiva para o espírito no Além é a consciência do tempo perdido.

segunda-feira, 12 de março de 2018

PARÁBOLA DOS DOIS ALICERCES


 Todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as pratica, será comparado ao homem prudente, que edificou sua casa, cavou fundo, aprofundou e colocou os alicerces sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos, precipitaram-se contra aquela casa, mas não desabou pois fora edificada sobre a rocha.  Mas o que ouve as minhas palavras e não pratica será comparado ao homem tolo, que edificou sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos, chocaram-se contra aquela casa; desabou, e foi grande a sua queda. Mateus 7:24-27 e Lucas 6:46-49.


A parábola dos dois alicerces, com as luzes que lhe são projetadas pela revelação espírita, permite-nos compreender que Jesus falava sobre dois padrões mentais, dois níveis de consciência.

No primeiro nível, representado pelo homem prudente (lúcido e desperto), temos a imagem do ser que faz o movimento para dentro de si (autoconhecimento). O homem aprende as lições de Jesus e as incorpora em seu comportamento, ou seja, ele vivencia as experiências da vida de acordo com o que aprendeu com o Cristo. Ele é consciente, tanto do ponto de vista psicológico quanto espiritual, de que sua felicidade não reside em atender às demandas do ego. Ele compreende que as lições do Mestre constituem um roteiro seguro para a conquista da saúde, da paz, da plenitude espiritual e da felicidade. Por isso, ele coloca em prática aquilo que aprende.

No segundo nível de consciência, representado pelo homem tolo, observamos a imagem de alguém que se direciona para o exterior, para o mundo ao seu redor. Assim, ele absorve os ensinamentos de Jesus, mas não consegue vivenciá-los. Isso acontece porque a criatura humana que ainda não despertou para a realidade superior da vida se dedica principalmente aos aspectos materiais e à satisfação das necessidades fisiológicas. Embora ele ouça os ensinamentos de Jesus, a imagem do Mestre continua sendo algo simbólico ou uma realidade distante de sua própria existência.

De forma concisa, podemos compreender que o primeiro homem prudente se concentra em seu mundo interior, enquanto o segundo homem está voltado para o mundo exterior. Um vive no reino de Deus, que está dentro, enquanto o outro vive no reino do mundo, que está fora. O primeiro encara as experiências da vida com clareza espiritual; o segundo ainda está adormecido do ponto de vista psicológico e espiritual. O primeiro escuta as lições de Jesus e prontamente se esforça para colocá-las em prática; o segundo ouve as lições, aprecia-as muito, as considera belíssimas, mas não as incorpora, pois não encontra a disposição interna para fazê-lo.

De acordo com a parábola, o primeiro padrão de consciência consegue enfrentar as provações e expiações que lhe são apresentadas. Ele aceita sua natureza espiritual imperfeita e é capaz de dominar os impulsos do ego. Por outro lado, o segundo padrão de consciência não consegue lidar com as provações mais desafiadoras, nem mesmo é capaz de aceitar sua própria imperfeição espiritual. Ele não consegue controlar os impulsos provenientes do inconsciente e, como resultado, ele sofre com doenças, vícios variados, depressão e, em situações extremas, pode até recorrer ao suicídio. A parábola enfatiza que a queda desse segundo padrão de consciência é significativa e dramática.

O evangelho de Jesus ilustra esses dois padrões mentais através das figuras de Judas e Pedro. Ambos conviveram com o Cristo e absorveram seus ensinamentos, mas quando confrontados com provações, ambos acabaram traindo o Mestre.

Judas, movido por ambições pessoais, o traiu por trinta moedas de prata, revelando uma falta de comprometimento com os princípios e ensinamentos recebidos. Sua traição representa a falha de um padrão de consciência que não conseguiu resistir às tentações mundanas. E, ao tomar consciência do grande erro praticado, não consegue suportar-se e acaba cometendo suicídio, pois sua casa estava edificada sobre a areia.

Por outro lado, Pedro, que nutria profunda lealdade e amor por Jesus, encontrou-se em um momento de fraqueza e negou conhecê-lo em três distintas ocasiões durante Sua prisão. Isso reflete um momento de fraqueza, onde Pedro cedeu ao medo e à pressão social, contrariando os princípios que havia aprendido com o Enviado.

No entanto, quando o galo canta pela terceira vez, Pedro percebe o equívoco cometido e empreende um movimento para reparar sua própria vida e reconstruí-la, tornando-se um dos maiores baluartes do cristianismo primitivo, porque sua casa estava edificada sobre a rocha.

Pedro movimentava-se para dentro, enquanto Judas voltava-se para o mundo exterior.

Ambos os casos destacam a dualidade da natureza humana, onde a capacidade de viver de acordo com os ensinamentos espirituais pode ser desafiada pelas fraquezas e tentações do mundo material. É um lembrete de que até mesmo aqueles que aprenderam diretamente com Jesus não estavam imunes às lutas internas entre os padrões de consciência.

Para identificarmos em que nível de consciência nos encontramos nesta encarnação atual, basta refletirmos sobre a frase proferida por Jesus: "Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

E onde está o nosso tesouro? Ou seja, quais os aspectos da vida nos chamam mais atenção? Com o que nos ocupamos e nos preocupamos? Que tipo de pensamentos temos alimentado e nutrido?

As respostas a essas perguntas informam como estamos gastando a nossa energia psíquica e isso determina o nosso nível de consciência, não do ponto de vista fisiológico, mas sim do ponto de vista espiritual. No entanto, se as nossas reflexões indicarem que estamos seguindo o mesmo padrão mental do homem tolo, é importante considerar os esforços que podemos fazer com Jesus para alcançar o padrão mental que já vislumbramos e desejamos atingir.

E, para isso, a doutrina espírita vem ao nosso socorro para nos ensinar como proceder. A questão 919, do Livro dos Espíritos, nos indica o caminho: "Conhece-te a ti mesmo." O Espírito Santo Agostinho nos orienta sobre como percorrer essa trajetória indicada.

Construir a casa sobre a rocha, vivenciando os ensinamentos de Jesus, é uma tarefa que ocorre no mundo íntimo. Contudo, a edificação dessa estrutura no campo dos sentimentos requer um esforço árduo e contínuo de autoconhecimento.

Isso possibilita que o indivíduo reduza as demandas do ego e, aos poucos, as supere, abrindo espaço para a manifestação do Eu interior (Self).

É o homem velho dando lugar ao homem novo. Não se trata de uma batalha interna, mas sim de iluminar as sombras internas, conforme o convite de Francisco de Assis: "Onde houver trevas, que eu leve a luz.”

Este é o propósito do autoconhecimento: iluminar nossa mente interior para que, ao sermos iluminados pelo conhecimento e pela vivência dos ensinamentos do evangelho de Jesus, possamos percorrer nosso caminho sem tropeços.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

EDUCAÇÃO PARA A MORTE

                                                                    

Apresentando uma proposta pedagógica para a compreensão do tema, Herculano Pires, no livro "Educação para a Morte", descreve nas primeiras linhas do primeiro capítulo o episódio vivenciado pelo grande filósofo grego Sócrates, quando o júri de Atenas o condenou à morte. Sua mulher, ao tomar conhecimento da sentença, correu aflita para a prisão, gritando-lhe: “Sócrates, os juízes te condenaram à morte”. O filósofo respondeu calmamente: “Eles também já estão condenados”. A mulher insistiu no seu desespero: “Mas é uma sentença injusta!” E ele perguntou: “Preferirias que fosse justa?”
A cena evidencia a serenidade com que Sócrates enfrentou a própria morte e, ao mesmo tempo, o desespero da esposa diante do mesmo fato. As reações divergentes de Sócrates e de Xantipa, sua esposa, decorrem, sem dúvida, de um processo educacional: a educação para a morte está presente em Sócrates, enquanto ausente na esposa.
É curioso notar que a vida somente educa as criaturas para a vida, jamais para a morte. Aliás, para muitos, a mera menção desse termo é causa de sofrimento. E assim, desde o nascimento, o aprendizado do ser humano circunscreve-se às necessidades apresentadas pela existência material. 
Educa-se para falar, para andar, para comer, para os relacionamentos, para cuidar da própria higiene e da própria saúde. E no quesito saúde, a educação é dirigida apenas para a saúde do corpo, sem qualquer preocupação com a saúde correspondente à parte que é eterna, como os sentimentos, pensamentos e emoções. 
Durante toda a vida, as pessoas se preparam para realizações pessoais e profissionais, sem sequer se lembrarem de que os dias as conduzem à morte, um fenômeno inevitável que surpreende a todos aqueles que não se encontram com o devido preparo emocional e espiritual para vivenciá-lo. 
Por isso, Herculano Pires, no mencionado livro, na página 15, assinala que a educação para a morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu. É um processo educacional que visa ajustar os educandos à realidade da vida, que não consiste apenas em viver, mas também em existir e transcender.
Pondera-se, assim, que o processo de educação se inicia com o autoconhecimento, impondo ao aprendiz o trabalho de conhecer a si mesmo e identificar no campo de sua tela íntima os objetivos da vida e o significado da morte. O autoquestionamento é um exercício salutar nesse processo. Quem sou eu? Quais sentimentos sustento em meu mundo íntimo? Que sentimentos me causam sofrimento? Que sentimentos me proporcionam felicidade? Qual é o objetivo da minha encarnação? O que tenho que aprender? O que estou fazendo para atingir esse objetivo? O que é morrer? Como é morrer? Que comportamento terei no momento da morte? E logo após? O que me impediria de deixar meu corpo? 
Meditar e refletir a respeito dessas questões é uma medida que conduz ao autoconhecimento. Neste ponto, a doutrina espírita apresenta-se como uma grande aliada no processo de educação para a morte. Por isso, destaca-se a importância da leitura do Evangelho, do Livro dos Espíritos, de "O Céu e o Inferno" e, enfim, das obras básicas e subsidiárias, as quais se apresentam como facilitadoras do processo de autoconhecimento. 
A doutrina espírita permite a compreensão de que todos somos espíritos eternos, em trânsito no mundo material para a aquisição de conhecimentos e experiências, com o objetivo de desenvolver faculdades e potencialidades divinas. Portanto, a morte não é um pesadelo nem um fenômeno ruim; pelo contrário, é uma necessidade, pois encerra uma etapa para que outra se inicie. 
Herculano Pires, no livro “A Evolução Espiritual do Homem”, afirma que viver é diferente de existir. Viver é ocupar-se apenas em atender às necessidades do corpo. Existir é priorizar a satisfação dos anseios da alma. Desconhecendo a sua realidade de ser cósmico, são muitos os que vivem somente para satisfazer as demandas da matéria, especialmente comer, beber, manter relações sexuais, adquirir fortuna e poder. Não percebem que o corpo físico é apenas um instrumento de trabalho do espírito em direção à perfeição. É por isso que as pessoas que vivem apenas para a matéria frequentemente experimentam um imenso vazio no coração. 
O ser que existe é aquele que busca o autoconhecimento e, à medida que trabalha pela sua transformação moral, sente crescer no coração a necessidade de atender e amar o próximo. O ser que existe compreende melhor os erros alheios e pratica o perdão. Distribui o bem que é possível e descobre que fazer o bem o torna feliz. 
Transcender é mais do que simplesmente viver. Portanto, estamos encarnados no mundo com o propósito de transcender. A roda das reencarnações, como é sustentado no hinduísmo, não chega ao fim até que o ser aprenda a transcender, o que implica ir além e ultrapassar a esfera material por meio do exercício do desapego. Isso envolve desapego em relação aos bens materiais, desapego dos relacionamentos afetivos, das ideias e das posições intelectuais, entre outros.
Por isso, em Mateus 16, 25-26, Jesus ensina que “quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrará a verdadeira vida.”
Com tais palavras, Mestre enfatizava o equívoco daqueles que atravessam a existência física entregando-se exclusivamente às realizações do mundo material, já que a verdadeira vida reside no plano espiritual. Ganhar a existência material é aproveitar ao máximo a oportunidade da atual reencarnação para enriquecer-se espiritualmente com valores e virtudes ensinados e exemplificados pelo Senhor. 
A proposta de Cristo não é fácil, especialmente em uma sociedade capitalista que exalta a riqueza, o poder, a beleza e a juventude como os maiores valores da existência. No entanto, o Mestre nunca disse que seria fácil, mas afirmou ser possível. Ele também acrescentou: “Tenham bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). 
O espírito Emmanuel, no livro "Pensamento e Vida", conclui que morrer é mergulhar em si mesmo. Portanto, a educação para a morte é, sem dúvida, o melhor investimento que alguém pode fazer em seu próprio benefício. 
No livro "Obreiro da Vida Eterna", capítulo 19, há uma bela passagem que apresenta Bezerra de Menezes em uma tarefa de auxílio ao momento do desencarne de Adelaide. Observando a ansiedade de Adelaide nesse momento crucial, Bezerra a tranquiliza e lhe diz: "Morrer, minha irmã, é mais fácil que nascer. Quando chegou a minha hora de desencarnar, procurei manter-me tranquilo e concentrei toda a minha lembrança na passagem de Jesus e Lázaro. Pude ouvir a voz do Cristo dizer..." 
– “Lázaro, sai para fora!”
Concentrar-se na vivência dos ensinamentos do Senhor torna mais fácil ao espírito que está se desprendendo do corpo abençoado que lhe serviu como veículo de aprendizado na Terra. Isso lhe permite afastar-se do corpo e contemplar as maravilhas do sol radiante que estão reservadas para todos aqueles que vivem de acordo com as leis divinas. 
Morrer de forma tranquila e serena é, em grande parte, uma questão de educação espiritual e preparo interior.